domingo, 3 de novembro de 2013

Apalpem-se! Cuidem-se!

Estive para escrever sobre este assunto no mês de Outubro. Mas, talvez devido à publicidade que é dado ao mês, não me apeteceu. Ou mesmo porque é um algo que mexe comigo e não me apeteceu falar... porque vou falar agora? Não sei bem, talvez com a esperança que as minhas palavras mudem uma atitude nem que não seja de uma única pessoa. Não pretendo relatar mais uma daquelas histórias de sobrevivência, e que despoletam nas pessoas a tristeza, a lágrima, a pena, a admiração. Tenho todo o respeito por todas as sobreviventes, mas talvez porque coloquei um pé desse lado da constante luta que não quero, não me apetece ser lida assim. Revoltada? Sim, apesar de não fazer disso o mote da minha vida, apenas algumas questões que eu própria procuro respostas e não me aparecem. Por isso interpretem as palavras que seguidamente vão ler como um alerta, nem que não seja levantem-se já da cadeira e façam o auto exame e marquem a vossa consulta!

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Sempre fui muito metódica nas coisas mais corriqueiras da vida. Tomo a pílula todos os dias à mesma hora, bebo um copo de água antes de ir para a cama, todos os anos no mesmo mês vou ao meu ginecologista o mesmo acontece com o meu dentista ou mesmo com o check-up geral com a minha médica de família. Sou uma criatura de hábitos, e tenho uma agenda com tudo programado. Paranóia? Não, apenas metódica e organizada! Aquele ano não foi excepção. Não tinha nenhuma queixa em particular, era uma rotina. À hora e dia marcado lá estava eu, no gabinete da minha ginecologista. Sinceramente, não me lembro nada de anormal, foi uma consulta normal. Fiz o papanicolau e o resultado seria enviado para a minha morada e posteriormente teria de ser eu a levar o resultado a gabinete da médica. O resultado chegou. Li não percebi, e coloquei aquilo, melhor dizendo depositei aquilo, nas tralhas do meu carro. Quando tivesse tempo ia ver. Passaram-se 3 semanas, até que encontrei a minha médica de família e disse-lhe que tinha o exame mas que por falta de tempo ou mesmo vontade ainda não tinha ido levar aquilo à ginecologista. Ela insistiu para o ver e para eu ir buscar aquilo ao carro, só me lembro de ter pensado "Bolas! Tenho esteticista! Ai tantos papéis, onde coloquei esta merda?!" Encontrei. Lembro-me de estar a escrever uma mensagem e a médica disse-me "Porque não foste levar isto à médica?" Levantei os olhos, a médica jovial com um ar limpo e corado estava branca, senti que engolia com dificuldade. Não sei o que lhe respondi a seguir... Meti o piloto automático. Percebi que no dia seguinte tinha de ir ao hospital com uma carta dela ter com uma médica qualquer. Eu sei que ela me tentou explicar, mas eu não quis ouvir... Tinha a minha esteticista à espera, fiz o meu dia normalmente, apesar de não me recordar mais nada... Senti o conforto da minha cama nessa noite e sei que chorei até adormecer.

Dia seguinte... tinha de trabalhar mas também tinha de ir ao hospital, demoraria lá? Mas, que raio ia dizer ao meu chefe para não ir trabalhar? No hospital tinha a médica de família à minha espera mais uma médica ginecologista, explicaram-me tudo de novo... e teria de ficar 3 meses à espera pelo serviço público, mas teria a oportunidade do privado. Acedi, era a minha vida, não saberia o resultado. Posso dizer que estava sem forças, era uma autêntico robot e graças à minha médica ela organizou tudo para mim.

Os dias seguintes, foram um baque. Lembro-me de contar à minha mãe. "Isso não é nada! Óh vamos a tempo! É o início!" e ela com os olhos encharcados de lágrimas "Vou à casa de banho!" disse-me ela, ouvi-a a abrir a torneira e a chorar...
O resto dos dias... quando fecho os olhos tento recordar, apenas me vem à memória muitas lágrimas, sofrimento e principalmente uma dor inexplicável e pensamentos de tentar perceber se o saldo da nossa vida é positivo. O que iria mudar? O que me faltou fazer? Porque não fiz?

Dias de tratamento. Fui sozinha. Não ia obrigar ninguém da minha família passar por aquilo. Fiz uma raspagem, coisa horrorosa com dores absolutamente agonizantes. Andava com caixas e caixas de medicamentos atrás de mim. Injecções dois em dois dias. Vómitos e falta de apetite seguiram-se. Dois meses passaram-se, novo exame e o resultado foi bom, estava a dar resultado!

Como disse, sei que fui uma sortuda! Apenas coloquei um pézinho naquele mundo que não quero voltar. Nestes longos meses faltei um dia ao meu trabalho, era isso que ocupava a minha mente. Muitas foram as viagens que eu fui e vim a chorar de desespero de dor, mas nada disse a ninguém. Eu era forte para viver aquilo. Se rezai? Não. Estava chateada, tinha 26 anos, não tinha filhos, tinha ainda tanto para viver e porquê eu? Apesar de ter feito tratamentos sozinha e muitas vezes não exteriorizar o que me ia na alma, sei que o meu namorado A* sabia, ele nada me dizia, eu sabia a razão. Mas, o abraço dele à noite era tudo para mim. Hoje estou bem, sou vista com regularidade.

Como disse com estas palavras apenas desejo que, nem que não seja uma única pessoa, que se levante e façam o auto exame marque a sua consulta. Eu sei as consultas são caras, mas têm o SNS. Faça alguma coisa. Mexa-se! Amanhã pode ser tarde.

A partir daquele momento, disse para mim mesma, todos os dias tenho de ser feliz, tudo pode estar uma porcaria à minha volta, mas olhar nos olhos do meu filho e sentir um beijo na minha face ou até mesmo um abraço da pessoa que me acompanha, aí as nossas forças são todas recuperadas e temos coragem para vencer. Podemos ser felizes com pouco, desde que estejamos vivas!

Sejam felizes!   

Imagem retirada do Google

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